segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Augusta, trans-rua

reparo num homem de chapéu de palha que pinta a sua própria fachada, letra por letra. usa um fino pincel, tinta vermelha e muito cuidado pra não borrar a parede branca. s a p a t e i r o.
me dei conta do tempo em que fiquei observando aquilo enquanto esperava na fila da costureira, do lado do açougue, quase em frente à vidraçaria, perto da feira de rua onde tem caldo de cana sabor limão e abacaxi. vou lá toda quinta, comer pastel e receber dicas das senhorinhas. à tarde, às vezes, bate uma vontade de passar na loteria (nada de mega sena. vou de quina mesmo. vai que). lá, apenas senhores, alguns também de chapéu.
dá pra perceber que é outro tempo, esse. o dia. a manhã. a tarde. na rua.
à noite?
não cabe tanta gente nos botecos. traveste-se. trans-ladeira da embriaguez. trans-rua dos jovens e gringos em tours alcoólicos. bloco do beija-beija. gritos adolescentes que ecoam até de manhã, quando os garis varrem as garrafas de vidro deixadas no chão.